O Fado da Princesa

Era uma menina doce e provou vulcão, agora solta labaredas por onde passa deixando marcas. Era antes levitação com picos e nuvens, agora condensada montanha de inatingível topo. Era de poder ser tudo donzela, argonauta, astronauta flor e menina. E desaprendeu gosto e sorriso, enrugando a cara e meio bruxa, mas ainda com encanto. Já nada mais era como antes e ficaria sempre assim a mudar, sem desejos nem trevos, princesa sem castelo e sapo que já foi príncipe, sapato nos pés e farpas no bolso, por isso o gosto vermelho que deixava. Mas ainda tinha o pijama e nele o urso, a casa e amores-maiores-que-ventos. Já não era mais sonho, mas não acordava. Engarrafava os suspiros e meia noite era ela de novo. A mesma.

Gabriella  Villaça



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O silêncio que age


       Ele não podia agir. Não que possuísse as mãos atadas, não que não enxergasse, não que não pudesse andar, falar ou ouvir, não que não tivesse mãos ou sentimentos. Ele simplesmente foi privado do direito de agir.

       Ele deveria ter agido. Não que tinha sido imposto um regime, uma ditadura, um bloqueio sentimental, não que ele tivesse sido desqualificado, vetado, censurado, não que tivesse se abstido de alguma inovação. Ele simplesmente não fez nada!

       Ela poderia ter agido. Não que ela devesse, não que ela precisasse – apesar de achar que é o que ela mais queria – não que ele tenha tirado dela todo o poder da iniciativa, não que ela tivesse se abstido de qualquer sentimento. Ela simplesmente tinha o controle daqueles dois mundinhos.

       Ela não podia agir. Não que não possuísse as mãos atadas, que não enxergasse, que não pudesse andar, falar ou ouvir, não que não tivesse sentimentos. Ela simplesmente se privou do direito de agir.

       O monumental silêncio controla a sala. Entre os pensamentos, entre os vãos dos ecos mais mínimos, o silêncio ocupou-se de cantar – maldita música que rima e desrrima o amor, às vezes. O silêncio é a ferramenta que transgride seu próprio obstáculo.

       Uns olhos se viram e desviam dos outros olhos. Se olham e desolham.

       - Cê vai dormir aí no sofá?
       - Ah... ?
       - ...

       Maldito silêncio. A oração dos desalmados.

       - Olha, você vai dormir aqui...

       Ela aponta o quartinho minúsculo, solitário – solitária! – e vai para seu quarto, querendo vomitar o silêncio – diz a medicina gastroenterológica que é o eco de tudo que não foi dito. Mas ela regurgita essas exclamações no silêncio, como não...

       Ela se deita querendo que ele abrisse a porta e dissesse alguma coisa, que beijasse alguma coisa, que dormisse com ela, mas ela havia se privado do direito de querer.

       Ele a olha fechar a porta querendo abri-la e dizer alguma coisa, beijar a sua boca e dormir com ela, mas ele havia sido privado do direito de querer.

       Ela queria amor, mesmo com outro nome. Ele queria amor, mesmo com sobrenome, mas só reinou o silêncio e sua ferramenta que não abre porta nenhuma.

       Ele chuta a cadeira sem querer, e a cadeira grita junto com o chão. Ele se preocupa com o fim do silêncio, com o fim do limite da alma dos sentimentos, com o fim interminável do tique e taque do relógio, com o fim do latido do cachorro na rua, com o fim da rua para a viatura extinguir sua sirene, com o fim do vento, com o fim da lua, com o fim da luz, da água, do gás, do transporte público, das propagandas dubladas, da tinta da caneta, da cerveja, do cigarro, da pasta de dente, da sua paciência com o silêncio.

       - Quem sabe se eu falasse mais ela gostasse mais de mim... Mesmo sozinho, ela gostasse mais de mim.

       E ele pensou em mendigar pela rua falando sozinho, do jeito que ela gosta.

       - Quem sabe se eu falasse mais ele me entendesse. Mesmo sozinha, ele voltasse a me entender...

        E ela pensou em mendigar pela rua falando sozinha, do jeito que ela gosta. E o silêncio reinou nos sonhos dos dois, solitários, numa noite fria e calma.

Rodrigo Lopes



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A COR E A DOR

Ao encontrar seu homem com outra, perdeu a noção das coisas. Cega de raiva, como uma selvagem quebrou tudo à sua volta, saindo em disparada, correndo pela rua, desgovernada. Lágrimas escorriam daqueles olhos azuis e desciam pela pele branca; a face de um anjo desfigurada pela dor. A raiva deixava trêmulas as suas mãos e o ciúme a tornava temporariamente cega e tremendamente doída.

Corria, apenas corria, e ainda ofegante e atônita percebeu que estava diante de um cemitério, ao lado, alguém vendia flores, mas a alegria lhe havia sido roubada. Do outro lado da rua um luminoso chamou sua atenção, suas luzes e o silêncio puxaram-na para dentro. Chorava ainda, soluçando, olhos vermelhos, borrados, cabelos desgrenhados. Uma mocinha vestida de vermelho, veio atendê-la e penalizada tentava consolá-la. Olhava aturdida para aquela mancha vermelha que a servia, parada à sua frente, mas não lhe escutava, apenas ouvia seus próprios soluços e chorava, chorava, chorava... Queria comer, comer, comer, depois sumir e dormir por incontáveis dias e noites. E depois? Respostas não lhe ocorriam.

Enquanto comia, observou ao redor e percebeu a garota ainda de pé ao seu lado, falando, falando... Sim, falava sem parar sobre alguém que havia morrido. Percebeu então que a garçonete, a consolava como se achasse que ela houvesse saído daquele sepultamento que acontecia do outro lado da rua. Seus olhos caminharam lentamente em direção ao cemitério, enquanto ela pensava em como felizes seriam seus dias se ela pudesse encerrar todo amor e dor que sentia dentro daquele caixão e abafá-lo sob a terra daquela sepultura. E ela sorriu.

A garçonete confusa, via despontar daquele rosto sofrido, um misto de cinismo e prazer. Ela então, levantou-se, pagou a conta enquanto apanhava a faca que repousava sobre o prato, olhou para a mocinha e seu vestido Vermelho, buscando inspiração e saiu.

Sarah Keyrós



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Quando os Ventos Chamam

Seu cabelo lhe tomou a face... O vento estava veloz, e um certo acizentado cobria como um manto o raio de sua visão. Suas mãos estavam trêmulas e sua respiração ofegante (o que era isso um sinal de receio); sua roupa ululava com a brisa, constantemente lhe acariciando todos os cantos e peles...

Rasgou as últimas páginas de seu diário, cheio de lágrimas, desilusões, desapontamentos e alegrias fugazes. Deixou com que a gravidade levasse cada uma delas para a água, próxima aos seus pés; observou a tinta se manchar e se tornar disforme, da mesma forma que sua perspectiva havia se tornado. As letras se espiralaram e inúmeros portais se abriram naquele pedaço quadrado de celulose.

Respirou profundamente. Vasculhou com os olhos as margens. Baixou a vista e permaneceu com a visão focada em uns pedregulhos, úmidos. O limo lhes dava uma certa coloração, com a qual ela se distraía. Lembrava de tempos idos, cheiros e luzes. Embriagava-se em memórias (as quais não sabia se realmente tinham tido para outros toda essa pureza transmitida).

Descansou os braços. Estava muito cansada. Tanto já havia se partido, havia partido e nem ao menos gotas de analgésico espiritual lhe haviam sido concedidas. O rumo, o inesperado, das coisas havia impressionado. O gosto havia ficado amargo.

Sentou-se, deixou as ondas molharem seu vestido. Pelo menos agora havia uma sensação de liberdade plena. Não havia mais documentos, responsabilidades, páginas de um diário... Restavam lembranças, mas disso seria impossível escapar. O sal do mar lhe dava uma sensação boa, de infância, de tempos onde a preocupação não era nem uma sombra. Sentiu-se novamente assim, um ser frágil, necessitado dos pais, mas leve, ausente de grandes satisfações. O mundo, naquele instante, se encolheu e a beleza retornou com uma certa dignidade.

Olhou mais pra trás e avistou sua bolsa. Pegou-a. Era uma bolsa bonita, comprada há tempos numa feira. Era feita de material artezanal, coisa com cara de folclore. Pôs a mão dentro e passou a vasculhar, procurando algo com certo desprendimento. Tirou sua libertação: um dispositivo de seu querido companheiro; algo feito para ferir, mas utilizado por todos os decendentes com maturidade. Pensou consigo mesma o quão bem aventurada havia sido ao tomar tal iniciativa; ao tomar a decisão de poupar o sofrimento de suas duas filhas, de seu marido e de seus velhos pais.

Arremesou-o ao mar também. Levantou-se e, finalmente, totalmente livre, se pôs em direção ao desconhecido, à companhia das páginas de seu antigo diário, onde portais espiralados se formam e as memórias se perdem. Caminhou até não ser vista. Sucumbiu às profundezas dos tempos guardados e dos sonhos sem fim...

John Fletcher



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RETROVISOR

Ela sente olhos passando pela sua nuca, olhos que lhe perseguem já há algum tempo. Olha com devida atenção pelo retrovisor e vislumbra um rosto moreno, barba por fazer e óculos escuros que a impossibilitam saber qual direção exata aquele olhar lhe foca. Ainda assim, sabe estar sendo profundamente observada. Ouve ao longe o som de buzinas. Continua encarar o retrovisor descobrindo um meio sorriso no rosto másculo do motorista do carro de trás. Mais buzinas... Sem graça, se dá conta de que o sinal abriu, volta a atenção ao trânsito, mas continua olhando pelo retrovisor. O carro percorre exatamente o mesmo caminho que o dela. Apesar da distancia segura entre os carros, ela vê o motorista esterçar para mesmo lado que ela e a seguir pelas mesmas ruas como se a estivesse perseguindo.

Novamente os carros param no farol. Ela observa que ele sorri enquanto movimenta os lábios parecendo balbuciar alguma música e já não sabe ao certo se o sorriso é pela musica ou para ela. Decide encará-lo... sente suas mãos suando, coração acelerado, respiração alterada. Continua dirigindo ansiosa com aquela presença silenciosa daquele olhar escondido atrás de óculos escuros, e mesmo assim, não a impediam de senti-lo percorrendo-a. Ela sorri.

Mesmo temerosa, afinal ter um estranho a olhá-la insistentemente é algo que há muito não lhe acontecia, sente-se cheia de si. Seu ego infla massageado. Ensaia possíveis falas. Os braços arrepiam o nervoso. Sua libido esta totalmente desperta.

Transborda-se de coragem e estaciona ao terminar a curva. Dirige seus olhos novamente ao retrovisor engatando um aceno de boas vindas e... Nada! Ele se foi.

Subitamente desolada permanece ali olhando pro nada. Pensa no que poderia ter acontecido se ele continuasse a segui-la? O que teria despertado nele um interesse tão grande a ponto dela tê-lo percebido?

Salta do carro sem pensar para onde ir. Desanimada pensa na possibilidade de ter esquecido de dar seta avisando o próprio trajeto. Mil pensamentos rondam-lhe a cabeça.

O calor insuportável derretia-lhe o corpo. Sentada na guia acende um cigarro, olha para o salto fino, unhas esmaltadas. Passa a mão pelos cabelos, molhados, e sente um filete úmido escorrer pela alça de seu vestido, enquanto outro filete desce pelas suas costas. Olha para as mãos e agradece...

No afã de não se atrasar para pegar as crianças na escola, esqueceu-se completamente de retirar a máscara de tratamento capilar.

Por isso o estranho tanto ria. 

Claudia Floresta



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Rocca, Ericão e Papagaio só no teste ;-)



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