Todos os sentidos possíveis
Eu esperava que ela me ligasse quando cheguei em casa, mas não.
I Estava cheio daquela situação. Não queria mais ficar na dúvida e resolvi acabar com tudo. Eu gostava muito dela e ela dizia o mesmo, mas eu não acreditava. Custava-me acreditar, ainda mais depois de hoje, quando claramente ficou insinuando-se para aquele rapaz da agência. Tocava nele, conversando, descontraída, comigo ao seu lado. Quando me tocava era como que acidental, suas mãos encostavam em minha coxa no percurso de alcançar a mesa perto do braço do rapaz. E olhava para ele com um sorriso radiante de flerte, concordando, argumentando, questionando a proposta de negócio que tentava fechar, mas sempre com aquela atenção maliciosa de mulher-cadela no cio – era daquele tesão incontrolável que transforma as pessoas em animais prontos para o coito, transforma a mais pura e casta amante na pior vagabunda, na visão invisível e turva do enciumado. Negócio fechado. Despedimo-nos. Ela segue contente querendo comer um doce. Vamos. E depois embora. Vou embora. Tchau. Tchau mesmo. Não digo nada, mas estou indo embora. Entro em casa com o carro pronto para uma nova saída. O telefone toca mas grito do banheiro que “eu tô mijando, porra”. Tiro do gancho e desligo sem dar tempo para um “alô” qualquer. Acerto a ida ao puteiro e lá vou eu, feliz da vida à promiscuidade que tanto odeio e que tanto alimenta meu medo de me envolver com esses “sentimentos”. Vou chorando no caminho, como uma criança insegura, enquanto deixo o telefone chorar sozinho em casa.
II Dei uma volta para comprar cigarro e um monza prateado fugindo da polícia atravessou a via sem parar, acertando no meio do meu carro. Com a surpresa pelo inesperado, segurei com força no volante, meus pés afundaram-se nos pedais e só tive o reflexo para soletrar meia sílaba do “putaqueopariu”. Me acertou bem no meio numa velocidade violenta. Meu carro capotou algumas vezes rua abaixo, quase partindo-se ao meio comigo dentro, e também parti ao meio – por mais partido que já pudesse estar. No choque, meu corpo solidificado parecia transformar-se num organismo unicelular, desmanchando-se como que fundido no metal e nos estrondos: uma receita fúnebre de um banquete excêntrico como daqueles dos programas de auditório que os artistas têm que comer para fazer caretas engraçadas e ganhar pontos no jogo. Foi tudo muito rápido, onde não havia tempo para sequer se arrepender de algo ou enxergar alguma luz divina que me trouxesse paz e sabedoria. Eu não era mais um ser, nem humano, nem racional, nem sentimental. Não havia mais nada em mim. Não havia mais fêmur, bacia, clavícula, crânio, costelas, omoplata, úmero, fígado, rim, coração. Eu era agora somente um pedaço de matéria que deixara de se movimentar e que esperava uma ligação que não aconteceu, ou que poderia ter acontecido mas não havia nada lá que pudesse atender.
III Quando enfim entrei, atendi o telefone no último toque. Mas não era ela. Era meu irmão dizendo para eu ir para o hospital que meu pai acabara de sofrer outro ataque, mas que dessa vez foi fulminante e que não havia muita esperança. Volto ao carro, às pressas. Ouço, baixinho, pouco antes de sair, o telefone tocar de novo. Tenho que me apressar.
IV Quando termino de guardar o carro na garagem, ouço o telefone tocando, mas não tinha ânimo para atender, apesar de esperar por aquilo durante todo trajeto da casa dela até a minha. Tranco a porta da cozinha e o barulho eletrônico irritante do aparelho continua soando, mas cessa quando estou a dois passos para alcança-lo. Suspiro com o braço estendido. Talvez seja melhor assim. Há algum tempo tenho reconhecido como alguns pequenos atos cotidianos nos informam o que pode ser melhor ou pior em nossas vidas, como dicas para que essa condução não seja tão errada como geralmente é. Por exemplo, quando ainda não tinha câncer na boca, sempre que meu cigarro acabava aconteciam pequenas coisas que dificultavam o acesso ao vício. Ou não tinha do meu cigarro preferido, ou não tinham fósforos nem isqueiro – e teve um dia que todo meu maço caiu numa poça d’água na sarjeta suja da rua. Mas, apesar de todas essas dicas da vida, eu sempre me esforçava para fazer o contrário. Eu sempre conseguia meu cigarro, por mais trabalhosa que fosse a tarefa, até que eu consegui o câncer. E é assim que dialogo com o destino. Agora, se fosse para eu realmente falar com ela agora, o telefone tocaria novamente. Acontece que eu sempre contrario esse meu destino, pois acho que ele também está contra mim. Desligo do fio e vou dormir, tranqüilo, depois de tomar meus remédios e pensar em quantos dias ainda sobreviverei.
Rodrigo Lopes
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